Quando fiz 30, achava tacitamente que eu já tinha adquirido autoconhecimento suficiente. Conhecimento sobre o que eu gostava de fazer como lazer, sobre o que eu achava interessante nas outras pessoas, sobre quais as músicas me agradavam, sobre que horas eu gostava de levantar nos domingos. Eu acreditava até que já tinha desvendado todas as minhas aptidões. Eu descobri que sabia desenhar decentemente quando ainda era criança. Um pouco depois, na adolescência, descobri que conseguia tocar guitarra com alguma fluência. Mais tarde, contrariando o que seria o caminho mais provável de uma carreira nas artes, descobri que tinha uma facilidade para a escrita técnica característica da filosofia. Investi todas minhas fichas aí ao longo dos meus 20 anos e me tornei um filósofo profissional.
Foi uma enorme surpresa quando, com 33 anos recém feitos, descobri uma aptidão (não ouso falar em "talento") para levantar peso. Não sei se o fator facilitador foi a minha genética — parte da minha família é extremamente longeva, então talvez eu ainda tenha níveis hormonais vestigiais de uma adolescência prolongada; ou a minha estatura diminuta, pois aos 1,68m a minha morfologia corporal possui as chamadas "alavancas favoráveis"; a minha ética de treino (a ideia de que eu não poderia nunca treinar sem levar meu corpo ao desgaste absoluto); ou até mesmo o meu hiperfoco, pois eu penso em musculação uma boa parte do meu tempo livre. O ponto é que de repente eu descobri, tardiamente, uma coisa na qual era realmente bom, ou pelo menos consideravalmente acima da média.
Eu comecei a treinar de verdade no dia 23 de julho de 2022. Antes disso eu tinha frequentado academias esporadicamente e lutado um pouco de boxe. Ao final de 2024, eu tinha levantado 200kgs no levantamento terra. Não é muito, mas eu sou velho, comecei tarde e sou totalmente natural. Nunca tomei nenhuma bomba. Nunca senti que precisei. Sempre que eu tenho a chance, eu agradeço ao meu treinador durante esse período, Felipe Soares (@itsfelipesoares) por ter montado treinos que me levaram ao limite e aos quais meu corpo reagiu positivamente. O hábito de levar cada exercício pelo menos muito perto da falha mecânica me rendeu um excelente retorno hipertrófico ao longo desses dois anos de treino — a ponto de eu frequentemente ser questionado, seriamente ou não, sobre o uso de anabolizantes.
Em janeiro deste ano, decidi que queria competir como powerlifter. Powerlifting é um esporte em que os atletas realizam 3 exercícios: agachamento, supino e levantamento terra. Quem movimenta a maior carga somando esses três exercícios, dentro de cada categoria de peso, ganha. Simples. Força bruta. Eu digo isso para diferenciar powerlifting de fisiculturismo (concurso de beleza). Mas a diferença real é que, no fisiculturismo você treina o músculo, no powerlifting você treina o movimento. É outra abordagem. Outra difença é que fisiculturistas usam sunguinha ou calção de tactel, nós usamos macaquinho (que é muito mais estiloso).
Foi uma enorme surpresa quando, com 33 anos recém feitos, descobri uma aptidão (não ouso falar em "talento") para levantar peso. Não sei se o fator facilitador foi a minha genética — parte da minha família é extremamente longeva, então talvez eu ainda tenha níveis hormonais vestigiais de uma adolescência prolongada; ou a minha estatura diminuta, pois aos 1,68m a minha morfologia corporal possui as chamadas "alavancas favoráveis"; a minha ética de treino (a ideia de que eu não poderia nunca treinar sem levar meu corpo ao desgaste absoluto); ou até mesmo o meu hiperfoco, pois eu penso em musculação uma boa parte do meu tempo livre. O ponto é que de repente eu descobri, tardiamente, uma coisa na qual era realmente bom, ou pelo menos consideravalmente acima da média.
Eu comecei a treinar de verdade no dia 23 de julho de 2022. Antes disso eu tinha frequentado academias esporadicamente e lutado um pouco de boxe. Ao final de 2024, eu tinha levantado 200kgs no levantamento terra. Não é muito, mas eu sou velho, comecei tarde e sou totalmente natural. Nunca tomei nenhuma bomba. Nunca senti que precisei. Sempre que eu tenho a chance, eu agradeço ao meu treinador durante esse período, Felipe Soares (@itsfelipesoares) por ter montado treinos que me levaram ao limite e aos quais meu corpo reagiu positivamente. O hábito de levar cada exercício pelo menos muito perto da falha mecânica me rendeu um excelente retorno hipertrófico ao longo desses dois anos de treino — a ponto de eu frequentemente ser questionado, seriamente ou não, sobre o uso de anabolizantes.
Em janeiro deste ano, decidi que queria competir como powerlifter. Powerlifting é um esporte em que os atletas realizam 3 exercícios: agachamento, supino e levantamento terra. Quem movimenta a maior carga somando esses três exercícios, dentro de cada categoria de peso, ganha. Simples. Força bruta. Eu digo isso para diferenciar powerlifting de fisiculturismo (concurso de beleza). Mas a diferença real é que, no fisiculturismo você treina o músculo, no powerlifting você treina o movimento. É outra abordagem. Outra difença é que fisiculturistas usam sunguinha ou calção de tactel, nós usamos macaquinho (que é muito mais estiloso).
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190kg (aproximadamente 93% do meu 1RM) no CT Powerlifting Brasil, em Porto Alegre
Eu lembro vagamente quando a ideia de competir despertou em mim. Vi alguma influencer do mundo maromba falar que, para competir, é preciso treinar sempre no padrão da competição. Seu agachamento deve ter uma profundida boa (a famosa "quebra da paralela"). No seu supino, a barra deve tocar no seu peito por algumas frações de segundo antes de subir. E o levantamento terra não permite o uso de straps. Entre outras coisas. Então eu pense, com temor: "competir deve ser muito difícil". Esse pensamento ecoou na minha cabeça por uns dias sem mudar de tom. Mas um dia sua valência, por assim dizer, mudou completamente: "competir deve ser muito difícil", eu pensei com certo entusiasmo. E daí eu comecei, nesse mesmo dia, a fazer uma dieta para baixar dos 80kg que eu tinha conquistado ao longo dos anos a pouco menos de 74kg (pois assim seria mais competitivo). Foi um horror. Quase passei mal nos primeiros dias, mas em 5 semanas eu tinha o peso certo. Também montei meus próprios treinos na base da tentativa e erro, o que durou pouco mais de dois meses, visando a melhoria daqueles lifts. O que eu de fato consegui: agachei com 180kg, fiz um supino com 110kg e um terra com 206kg. Meus melhores números (ainda que os padrões não fossem exatamente os de competição), que atingi quando estava com aproximadamente 77kg. Depois disso fiquei mais fraco porque acumulei muita fadiga sistêmica e senti que meus tecidos, especialmente os tendões, não estavam acompanhando a sobrecarga progressiva.
Nisso eu tive certeza de que precisava de uma orientação profissional e um acompanhemnto pelo menos parcialmente presencial. Hoje meu treinador é um grande amigo meu, Gabriel Ribas (@profgabribas). Aliás, quando nos conhecemos em Salvador, descobrimos uma conexão insuitada que precede em muito a relação de professor e aluno: ele é meu conterrâneo de Porto Alegre e namora uma ex-colega minha de UFRGS, com quem eu não falava há muitos anos. Gabriel montou um treino simples mas muito inteligente, no método texano de powerlifting, com o objetivo de limpar o meu imenso volume total e reorientar minha prática de treinos visando sobretudo a força, e não apenas a hipertrofia. Ocorre que levar cada exercício até a falha, isto é, basicamente sem deixar nenhuma energia na reserva, retarda o processo regenerativo e impede a progressão expressiva de carga, pelo menos quando você é um intermediário/avançado como eu e já movimenta cargas bastante pesadas. Eu tive que desaprender desse costume e voltar a treinar "leve", mas repetindo os mesmos exercícios com mais frequência, sem gastar energia em (e dedicar tempo para) exercícios irrelevantes para o esporte. Gabriel planejou um treino com apenas 5 exercícios, 3 vezes para a semana, variando volume e intensidade. É um recomeço importante. Eu ainda não cheguei nas cargas com as quais trabalhava antes, mas o plano é que, chegando lá, elas não pareçam mais tão pesadas. Meu plano (ainda um pouco conservador) é fazer 200kg no agachamento, 120kg no supino e 230kg no terra no dia da competição.
Há pouco concluí a minha primeira semana treinando nessa proposta. É claro que meu ego anseia a volta dos pesos absurdos e das tentativas aleatórias de "bater um PR [recorde pessoal]", mas eu estou totalmente investido em progredir de forma controlada, tendo sempre em mente chegar na minha melhor forma na competição estadual que ocorrerá em Setembro em Vitória da Conquista. O interessante é que nada disso foi difícil de conciliar com minhas atividades profissionais, porque hoje eu estou mais disposto para trabalhar e sou mais produtivo com meu tempo livre. A dificuldade maior às vezes é "virar a chave", parar de pensar em como melhorar minha técnica do agachamento para responder aos comentários do parecerista.
Nisso eu tive certeza de que precisava de uma orientação profissional e um acompanhemnto pelo menos parcialmente presencial. Hoje meu treinador é um grande amigo meu, Gabriel Ribas (@profgabribas). Aliás, quando nos conhecemos em Salvador, descobrimos uma conexão insuitada que precede em muito a relação de professor e aluno: ele é meu conterrâneo de Porto Alegre e namora uma ex-colega minha de UFRGS, com quem eu não falava há muitos anos. Gabriel montou um treino simples mas muito inteligente, no método texano de powerlifting, com o objetivo de limpar o meu imenso volume total e reorientar minha prática de treinos visando sobretudo a força, e não apenas a hipertrofia. Ocorre que levar cada exercício até a falha, isto é, basicamente sem deixar nenhuma energia na reserva, retarda o processo regenerativo e impede a progressão expressiva de carga, pelo menos quando você é um intermediário/avançado como eu e já movimenta cargas bastante pesadas. Eu tive que desaprender desse costume e voltar a treinar "leve", mas repetindo os mesmos exercícios com mais frequência, sem gastar energia em (e dedicar tempo para) exercícios irrelevantes para o esporte. Gabriel planejou um treino com apenas 5 exercícios, 3 vezes para a semana, variando volume e intensidade. É um recomeço importante. Eu ainda não cheguei nas cargas com as quais trabalhava antes, mas o plano é que, chegando lá, elas não pareçam mais tão pesadas. Meu plano (ainda um pouco conservador) é fazer 200kg no agachamento, 120kg no supino e 230kg no terra no dia da competição.
Há pouco concluí a minha primeira semana treinando nessa proposta. É claro que meu ego anseia a volta dos pesos absurdos e das tentativas aleatórias de "bater um PR [recorde pessoal]", mas eu estou totalmente investido em progredir de forma controlada, tendo sempre em mente chegar na minha melhor forma na competição estadual que ocorrerá em Setembro em Vitória da Conquista. O interessante é que nada disso foi difícil de conciliar com minhas atividades profissionais, porque hoje eu estou mais disposto para trabalhar e sou mais produtivo com meu tempo livre. A dificuldade maior às vezes é "virar a chave", parar de pensar em como melhorar minha técnica do agachamento para responder aos comentários do parecerista.